Diário 03.03.2021

Fez ontem um ano que o vírus entrou no meu país. Para a vida ter dado um volta de 180º faltariam uns poucos dias. Desde então, tudo mudou, a rotina, a forma como trabalhamos, como aprendemos, como nos relacionamos; a língua ganhou novos vocábulos; as pessoas ganharam medo e perderam liberdade.

A rotina que, ao princípio, deixou de o ser, voltou a ocupar o seu lugar, adaptada, ainda que todos julguemos que seja apenas temporariamente. Mas, em casa, sem a novidade que a convivência com outras pessoas traz, é fácil sentir que os dias se colam uns aos outros, que não fazemos nada de novo, que não há nada que nos inspire, que nos motive a seguir em frente, a ter ambições, a experimentar coisas novas, porque nos agarramos com força ao que já conhecemos com medo de que também isso nos seja tirado.

Leio por aí gente que começou a escrever diários com o confinamento, a contar os dias numa tentativa de se manter à tona. A maior parte irrita-me, são tão prepotentes, cheios de juízos de valor disfarçados. Julgam-se melhores do que os outros, ou então sou eu que tenho tendência para me sentir sempre diminuída, também é possível. Há exceções, claro está, como esta alemã que todos os dias deixa o registo dos seus dias numa casa cheia, numa terra pacata perto de Hamburgo, e que, apesar de um ou outro link afiliado, não é agressiva, nem arrogante, e dou por mim todos os dias à espera de que ela publique o seu diário (ela também mostra como perder um filho ao quinto não custa menos lá por já ter quatro), apesar de sentir que ela o faz por e para si, para não se perder no meio de dias que parecem iguais, para deixar uma marca para os seus filhos, para se lembrar de como, afinal, até foi feliz quando, no momento, achava que não.

Talvez me fosse útil fazer o mesmo. Vou ensaiar.

Diário 02.03.2021

Acordei às 7:30. Pela primeira vez em semanas, sinto que repousei mesmo. Tomo banho, visto-me e preparo papas de aveia com frutos vermelhos para mim e para as miúdas. O Tiago nunca come de manhã. Antes de sair para o escritório, chateamo-nos, o que já não acontecia há bastante tempo. Tento fazer logo as pazes, mas não sei se consigo; de qualquer forma, marca o tom para o dia, preciso de me esforçar para sair da espiral.

No escritório, despacho uma série de pedidos de tradução pequenos antes de me dedicar aos termos e condições de um contrato. Odeio traduções jurídicas, mas este cliente paga bem.

Vou almoçar por volta das 13, porque a Inês hoje tem aulas até tarde. O Tiago faz hambúrgueres com ovo estrelado – para a Alice tem de ser “sem ranho” – e salada, e ainda arroz para elas. Hoje, estou no último dia de introdução dos oligossacarídeos, pelo que tenho de comer um alho e meio, frito juntamente com o hambúrguer. É delicioso e não me causa sintomas.

Não podemos molengar ao almoço, porque hoje a Alice tem aula de leitura um pouco mais cedo. Arrumo a cozinha e volto para o escritório. Adianto uma série de coisas e trato da contabilidade, para entregar as despesas de Fevereiro à contabilista. Foi um mês sem grandes despesas, é rápido. Dou o dia de trabalho terminado por volta das 16:30. As meninas querem ir dar uma caminhada, como ontem, mas eu e o pai temos de ir ao supermercado. Demoramos algum tempo e, quando regressamos (elas ficaram a brincar com os primos), já começa a escurecer e ponho-me a tratar da sopa. Como ainda estou meio aborrecida, abro uma exceção e bebo o resto do vinho do fim de semana. É só um copo, mas relaxa-me.

Temos 9 ovos cuja data de validade já passou. Vejo se ainda estão bons e faço uma quiche sem farinhas nem natas, com base nesta receita. Já é a terceira vez que a faço e corre sempre bem. Meto o que houver no frigorífico; desta vez, meti muita cebola (comer três quartos de cebola de uma vez é dose!). Por via das dúvidas, as miúdas comem outra coisa, não vão os ovos fazer-lhes mal.

À hora de deitar, zango-me com as miúdas. Ficam sem história. Caramba, começo o dia chateada, acabo o dia chateada; fecha-se o círculo, pode ser que amanhã corra melhor. Vou para a cama mais cedo, hoje não me apetece ver nenhuma série. Ponho os fones e acabo de ver os 15 minutos que faltavam do documentário A Febre Ferrante. Invejo a tradutora norte-americana, Ann Goldstein. Poça, uma tradutora que dá autógrafos?! Leio um pouco do meu thriller alemão; estou a gostar bastante. Antes de adormecer, lembro-me de que o meu tio faria anos no dia seguinte. Faço uma nota mental para telefonar à minha tia. Adormeço por volta das 23:00.

(Considerações depois de escrever isto: (1) é demorado e (2) tive de fazer um esforço para me lembrar de algumas coisas que fiz ontem…)

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Terremotos internos

Além do documentário sobre o Nick Cave, este fim de semana vi ainda o documentário sobre a Joan Didion, The Center Will Not Hold, cujo título acho maravilhoso.

Aproveitei que o resto da família foi enlamear os sapatos e a roupa para a serra para ver as cascatas que se tinham formado com a chuva torrencial do dia anterior (tenho limites muito bem definidos para incursões ao ar livre e um deles tem que ver com solos pantanosos e pedras escorregadias, obrigada, mas não), e alapei-me no sofá com uma taça gigante de café no colo. Gostei tanto do documentário que, nessa noite, mandei vir um dos seus livros do UK, juntamente com outros livros que tinha na lista há uns anos e suspeito que dificilmente ou só daqui a muito tempo é que serão traduzidos por cá.

Acho que The Year of Magical Thinking vai ser um livro doloroso, que me vai custar muito a ler, especialmente porque sinto que me encontro na fase do luto mais abjeta, em que muitas vezes não me reconheço quando deixo que os pensamentos fluam livremente numa dança macabra.

Joan Didion perdeu o marido e a filha, mas este livro fala apenas sobre a perda do marido (enquanto a filha estava em coma; eu sei, é tudo tristíssimo). No filme, há alguém que diz, eu acho que é o cunhado dela, mas não fixei bem, que um mês depois da morte de um ente querido, a vida retoma o seu ritmo normal e as pessoas chegadas esperam que os enlutados façam o mesmo. Quatro meses depois da minha perda, a minha vida voltou ao normal e acho que toda a gente à minha volta já se esqueceu – ou então acham que por não falarem nisso é como se nunca tivesse acontecido –  e espera que eu também. Isto magoa-me um bocadinho, mas percebo que tenha de ser assim, que não possam nem queiram alimentar a vitimização durante muito tempo.

Foi graças ao documentário que mandei, finalmente, mensagem ao psicólogo. Preciso que ele me diga que tudo isto é normal e esperado e necessário, até, e que não faz mal que por fora tudo pareça estar bem e que alterne momentos de quietude e energia e esperança no futuro com momentos em que, silenciosamente, sempre silenciosamente, viro o meu sentimento de injustiça contra a felicidade dos outros.

O que terá a Joan Didion a dizer sobre isto?

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Inquietações

Primeira semana de aulas online. Tudo correu bem: o material informático não falhou, os links para o Zoom estavam todos certos, conseguimo-nos equilibrar sob a fina corda que liga a miríade de plataformas e apps que nos foram sugeridas para entregar trabalhos, entregámos a horas o que era pedido, incluindo coisas simples e rápidas de fazer por miúdos em aulas online e pais trabalhadores, tais como pesquisas sobre lendas e ativistas dos direitos humanos e uma carteira feita a partir de uma embalagem de leite, executada unicamente pela aluna, claro, sem ajuda nem orientação do encarregado de educação, como é óbvio. Check.

Final do dia de sexta-feira: sentimento de dever cumprido, vai de abrir uma garrafa de tinto para comemorar termos chegado ao fim de uma semana que mais pareceu um mês e o que é que acontece? Uma notificação de e-mail. E logo a seguir outra. Os professores, que não nos deixam esquecer que desta vez até se prepararam bem e já dispõem das infraestruturas necessárias: Senhores encarregados de educação, aqui estão os planos de aulas para cumprir a partir de segunda-feira, não obstante ser sexta e a malta só querer esquecer o mês que passou nestes cinco dias, não senhores, tenham um bom fim de semana, se conseguirem. E eu, de copo de vinho na mão, sabem o que fiz? Pois nada, fechei a aplicação do e-mail e fui-me entreter nas redes sociais, mas cada vez me entretenho menos; em vez disso, o que aconteceu foi que me inquietei ainda mais.

Inquietei-me com as redes sociais e com as pessoas que as frequentam mais a sua merda de perguntas a que ninguém quer responder e as suas opiniões que ninguém pediu. Onde compraste o casaco? E a mala? E o batom? E a receita, dás-me? Eu cá não concordo. És uma mãe esforçada, só é pena que isso não chegue. Inquietei-me com as fotografias filtradas de pais satisfeitos a fazer pão de sete cereais com os seus muitos filhos reluzentes. Inquietei-me com os diários de confinamento que mais parecem testamentos para os quais não há saco. Inquietei-me com a fertilidade das outras que as leva a terem filhos uns atrás dos outros como se fosse só estalar os dedos.

Depois, inquieta-me que isto me inquiete, porque eu devia era ficar feliz que os outros consigam aquilo que me escapou das mãos, e sinto-me uma má pessoa, rancorosa e ressentida, incapaz de sentir ternura com fotografias de irmãos que poderiam ter sido os meus três, duas meninas, um menino, todos tão parecidos uns com os outros, ou então não, porque a do meio não se parece com ninguém. Inquieta-me a culpa que sinto por sentir isto e inquieta-me que tenha de reprimir a vontade visceral de virar a mesa em que estou a fazer o puzzle para me acalmar ao invés de ir acabar a garrafa de vinho, sentada atrás da porta da casa de banho, a encher-me de pena de mim enquanto relembro mil vezes o que aconteceu e me pergunto, como se soubesse a resposta, porque haveria de me acontecer aquilo a mim. Depois recalco para não me tornar repetitiva, o que também me inquieta.

Dava-me jeito o dinheiro, mas está visto que, se calhar, está na hora de voltar ao psicólogo.

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diário 2021 #3

Retiro o que disse no outro dia. Ainda mal que fui cortar o cabelo antes de os cabeleireiros fecharem, porque continua uma bela merda. Se não andar com ele sempre apanhado, sinto-me com os 40 que eu, aos 20, achava que ia ter, não os 40 que tenho agora, mas uns 40 muito mais cansados e acabados. Felizmente, estamos confinados, e esta é a única altura em que me ouvirão dizer o que acabei de escrever, porque pelo menos assim não há muita gente que me veja neste estado.

Hoje, estou de férias. É claro que já tive de responder a uns e-mails e enviar um orçamento, porque é difícil estar de férias quando só nós é que sabemos que estamos de férias, mas prometi a mim mesma que, depois da empreitada do último livro (tradução e revisão de um colosso de 600 páginas que só terminei ontem) iria dar-me a mim mesma um descanso. Então fiz as coisas que as pessoas fazem quando estão de férias, como ir fazer análises, ir meter gasolina e limpar a gaveta dos talheres. Também fiz uma atividade com as minhas filhas, a quem eu, ultimamente, só via de fugida por causa do tempo que passei à volta do livro e do cansaço generalizado que se apoderava de mim quando não estava de volta do livro. Criámos umas colagens em cartolina: era para ser só uma cidade, mas elas no fim quiseram acrescentar uns balões a voar e fogo de artifício a desejar um feliz 2021. Penso que seja o seu desejo (in)consciente de que este ano seja melhor, ou uma representação da passagem de ano que podíamos ser tido ou, simplesmente, foi do que se lembraram para encher os espaços vazios.

Acabei Felicidade, do João Tordo, de que gostei bastante, e comecei Rapariga, Mulher, Outra, da Bernardine Evaristo. Custou a entrar, aquela falta de pontos finais há de ter uma explicação, mas agora já acho que é capaz de vir a ser um dos livros do meu 2021.

E, com isto… Sei que já estamos em Fevereiro e que 2021 não começou da melhor forma, mas podemos sempre pensar que vai melhorar. Ou isso, ou aquele chá de cânhamo e ashwangandha que comprei no outro dia sempre faz efeito… Feliz 2021.

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diário 21 #1

Ainda só passaram dez dias deste novo ano e é como diz o meme: what a fucking year this week has been. O mundo continua do avesso, os números de infectados com corona não param de aumentar, entraremos em breve num novo confinamento, coisas impensáveis continuam a acontecer nos Estados Unidos e, por cá, o André Ventura continua a ganhar perigosamente terreno nas Presidenciais. Eu tenho seguido os debates atentamente e estou determinada a orientar o meu voto no sentido de impedir que a extrema direita fique em segundo lugar.

No plano mundano, cortei o cabelo um bocadinho mais do que só as pontas, mas as minhas filhas não gostaram, e a Alice diz que eu pareço a “senhora da loja”. Expliquei-lhe que o cabelo cresce e que ela se vai habituar, mas ela olhou para mim como se tivesse acabado de lhe oferecer um prato de queijo azul. Ela odeia queijo.

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